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Vila inglesa de 1910 remete à história do Porto de Santos, em Bertioga (SP)

Fonte: Folha de S. Paulo
 
• Criada para abrigar funcionários da Usina Hidrelétrica de Itatinga, vila foi habitada por 100 famílias
 
• Hoje, estrutura é responsável por 30% da energia que abastece a área portuária
 
A bordo do barco que atravessa o leito do rio Itapanhaú, em Bertioga, no litoral sul de São Paulo, o técnico portuário Rodolfo dos Santos Neto, 46, segue para mais um dia de trabalho na vila de Itatinga. Ele é a quarta geração de sua família a viver no local, erguido em 1910 para abrigar os trabalhadores da usina hidrelétrica, construída para abastecer o porto de Santos.
 
Ele conta que seu bisavô, imigrante português, veio ao Brasil para trabalhar na hidrelétrica no começo do século passado, e morou na vila em estilo colonial inglês. "Eu saí para estudar, mas voltei para cá. Aqui é o meu paraíso."
 
Até então dependente de energia gerada a vapor, o porto foi equipado com fonte própria de abastecimento elétrico diante da ascensão da economia do café no estado, quando os antigos trapiches de onde escoavam a produção das fazendas do interior tiveram que evoluir para uma estrutura portuária mais robusta.
 
Para isso, em 1888, foi aberta uma concorrência pelo governo federal para reunir interessados da iniciativa privada em desenvolver o porto. O contrato de 90 anos previu a construção do cais e da hidrelétrica, localizada a 30 quilômetros de distância, na Serra do Mar. A geração de energia é facilitada pela geografia do local, com quedas d´água de até 200 metros de altura.
 
Hoje, a usina é responsável por 30% da energia que abastece o porto de Santos.
 
Atualmente, cerca de 15 das 70 casas da vila são habitadas por funcionários da hidrelétrica. O local ficou fechado para a visitação pública por mais de dez anos, até ser retomada em 2024 após convênio firmado entre a Prefeitura de Bertioga e a Autoridade Portuária de Santos.
 
Do pequeno porto às margens do rio Itapanhaú, é preciso embarcar em um trem puxado por trator que percorre sete quilômetros em meio à mata atlântica, entre veios d'água, para chegar até a vila. A última parada deixa os trabalhadores perto da usina, onde também está a capela Nossa Senhora da Conceição, inaugurada em 1942. Próximo dali fica a escola da vila, erguida em 1918, hoje, desativada, e a estrutura de um cinema que funcionou no local. Na vila também há um campo de futebol.
 
As casas foram construídas por engenheiros ingleses, em estilo vitoriano, em madeira pinho.
 
Moradora da vila há mais de 30 anos, Josefa de Jesus Silva, 60, se mudou para lá para trabalhar como técnica de enfermagem no posto de saúde da vila, desativado em 2015. "Quando eu cheguei, não sabia que iria ser assim tão pacato, demorei a me acostumar porque morava em São Vicente", diz. "Hoje, adoro esse lugar, tem uma paz que não encontramos lá fora."
 
Sem o trabalho no posto de enfermagem, ela assumiu a padaria da vila, um dos pontos de parada do trem.
 
Ela conta que a retomada do turismo do local, em 2024, atraiu visitantes no começo, mas, os grupos são cada vez menores. Há limite de 80 pessoas por fim de semana, divididas em grupos com saídas pela manhã e a tarde.
 
A visitação custa de R$ 130 a R$ 180 por pessoa e deve ser agendada com guias cadastrados pela Prefeitura de Bertioga.
 
Em novembro de 2024, a vila obteve a primeira licença ambiental da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), 114 anos após o início das operações. A medida faz parte do projeto de parceria público privada para a elaboração de estudos de modernização, aumento de capacidade de geração da usina, produção de hidrogênio verde, preservação ambiental e exploração turística.
 

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