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06/04/2026 - 11h44

Barnabé-Bagres e a expansão que o Porto de Santos ainda não decidiu


Fonte: BE News / Valter Branco*
 
Um projeto com escala para transformar o porto, e que permanece adiado há mais de duas décadas
 
O Porto de Santos voltou a crescer com consistência. A trajetória recente da movimentação de cargas confirma o que o setor já sabe há anos: a pressão sobre a capacidade do porto não é conjuntural, é estrutural.
 
Nesse cenário, o STS10 cumpre um papel relevante, mas limitado. Trata-se de uma solução de otimização: melhora a eficiência, aumenta a densidade, extrai mais de uma base já existente e, em relação à capacidade adicional, a previsão é de que seja consumida antes mesmo da conclusão do projeto. É, sem dúvida, necessário, mas não altera a escala física do Porto.
 
E é justamente essa escala que define o problema.
 
A discussão mais importante para Santos já não está no quanto ainda é possível otimizar, mas no quanto será necessário expandir. E essa resposta não é nova. Há mais de duas décadas, o próprio setor identificou onde essa expansão deveria ocorrer: na região de Barnabé e Bagres.
 
O projeto Barnabé-Bagres nasce no final dos anos 1990 com um diagnóstico claro: o porto cresceria além de seus limites originais. Desde então, diferentes estudos reforçaram essa percepção, ajustando premissas, revisando cenários, mas mantendo a mesma conclusão: sem uma nova frente portuária, o crescimento de Santos seria progressivamente limitado.
 
O que diferencia Barnabé-Bagres não é apenas sua localização, mas sua escala.
 
São cerca de 6 milhões de metros quadrados de área potencial, aproximadamente 11 quilômetros de cais e capacidade para dezenas de berços de atracação. Mais relevante do que os números isolados é o que eles representam em conjunto: uma capacidade adicional superior a 100 milhões de toneladas por ano.
 
Em termos práticos, isso coloca o projeto em uma categoria rara.
 
Barnabé-Bagres tem potencial para praticamente dobrar a capacidade total do Porto de Santos, considerando não apenas contêineres, mas o conjunto de suas operações, incluindo granéis sólidos, líquidos e carga geral. Não se trata de aliviar gargalos pontuais, mas de redefinir o patamar operacional do Porto.
 
Poucos projetos no mundo oferecem esse tipo de transformação em um único movimento.
 
Ainda assim, mais de vinte anos após sua concepção, o projeto permanece sem viabilização concreta.
 
Parte dessa trajetória passa pelos estudos de viabilidade. Em determinado momento, esses estudos foram conduzidos por um operador estabelecido no próprio porto, portanto um agente que poderia ser diretamente impactado pela entrada de nova capacidade concorrente. Esse tipo de arranjo não é incomum em projetos de infraestrutura, mas exige leitura cuidadosa.
 
Premissas como crescimento de demanda, necessidade de capacidade adicional e timing de expansão são altamente sensíveis. Pequenas variações nesses parâmetros podem deslocar significativamente as conclusões. Quando essas premissas são elaboradas por agentes inseridos no mercado, o risco de uma visão mais conservadora, ainda que tecnicamente fundamentada, passa a ser parte da análise.
 
O resultado, na prática, é um projeto reconhecido, estudado, mas constantemente postergado.
 
Enquanto isso, o porto evolui por incrementos.
 
A recente ampliação da poligonal do Porto de Santos reforça essa tendência. A expansão foi relevante, mas concentrou-se em áreas que ampliam o sistema existente, sem incorporar a principal fronteira de crescimento disponível. Barnabé-Bagres permaneceu fora desse movimento.
 
Isso não elimina o projeto. Apenas adia sua materialização, mas o tempo, nesse caso, é um fator crítico.
 
Projetos dessa magnitude não são implantados rapidamente. Exigem anos de estruturação, licenciamento ambiental, modelagem e execução. Quando a necessidade se torna evidente no sistema operacional, o prazo para resposta já não é mais suficiente.
 
Há ainda um aspecto que reforça a relevância de Barnabé-Bagres: o acesso.
 
Grande parte das restrições do Porto de Santos está associada à saturação das vias de acesso às áreas mais consolidadas. Expandir dentro desse mesmo espaço implica conviver com os mesmos gargalos. Barnabé-Bagres, por sua localização, permite a estruturação de acessos independentes, fora da zona mais congestionada.
 
Isso significa não apenas maior capacidade, mas um sistema mais equilibrado.
 
Se mantida a trajetória atual, a capacidade incremental gerada por projetos como o STS10 tende a ser absorvida em um horizonte relativamente curto. Esse comportamento é típico de sistemas logísticos sob pressão contínua de demanda. Quando isso ocorrer, o porto voltará ao seu limite operacional, mas sem uma expansão estrutural em curso, e é exatamente esse o ponto.
 
A discussão sobre Barnabé-Bagres não é mais uma questão de visão de longo prazo. É uma necessidade de médio prazo que exige decisão no presente. O projeto já foi concebido, dimensionado e debatido. O desafio não está mais na identificação da solução, mas na sua viabilização.
 
O Porto de Santos continuará crescendo. A demanda continuará chegando. A pressão sobre a capacidade não irá recuar.
 
A única dúvida real é se a expansão necessária será antecipada ou se, mais uma vez, virá apenas como resposta a um gargalo já instalado, porque, no caso de Barnabé-Bagres, a questão deixou de ser “se” e passou a ser “quando”.
 
*Valter Branco, engenheiro e consultor. Escreve semanalmente para o BE News.