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Porto de Santos deve receber R$ 12,5 bi até 2028, diz Pomini
Fonte: BE News
Em entrevista exclusiva, o presidente da APS analisa os principais projetos em curso, do Tecon Santos 10 à expansão ferroviária, e os desafios de crescimento
O presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), Anderson Pomini, falou com exclusividade ao BE News em um momento decisivo na história do maior complexo portuário da América Latina. Com R$ 12,5 bilhões em investimentos previstos até 2028, o porto, que completou 134 anos no dia 2 de fevereiro, entra em um ciclo de expansão que combina aumento de capacidade, reordenamento logístico e redefinição da relação com a cidade e com o comércio exterior brasileiro.
Entre os projetos centrais dessa nova etapa estão o Tecon Santos 10, cujo leilão está previsto para o primeiro trimestre deste ano e que, sozinho, prevê R$ 6,4 bilhões em aportes, e o avanço das obras da Ferrovia Interna do Porto de Santos (Fips), consideradas fundamentais para ampliar a participação do modal ferroviário e reduzir gargalos históricos de acesso. Segundo Pomini, essas intervenções já foram concebidas para um cenário de crescimento acelerado, capaz de absorver impactos como os esperados com o acordo Mercosul–União Europeia e a expansão contínua da corrente de comércio.
Na entrevista, o presidente da APS também detalha a estratégia do porto na agenda ESG e na transição energética, tema que vem ganhando centralidade na governança portuária, além de abordar os desafios da automação, da qualificação da mão de obra e do equilíbrio entre logística, turismo e uso urbano do território. Ao projetar o futuro, Pomini acredita que, com os investimentos em curso, é possível que o Porto de Santos deixe a atual 37ª posição no ranking mundial e passe a figurar entre os 20 maiores portos do mundo na década de 2040.
Presidente, o edital do Tecon Santos 10 deve ser publicado até o fim de maio deste ano. Com investimento de R$ 6,4 bilhões, quais serão as principais contrapartidas exigidas da empresa vencedora para minimizar os impactos na cidade e nos trabalhadores portuários?
Desde o início, o projeto do Tecon Santos 10 vem sendo acompanhado por uma série de estudos técnicos aprofundados justamente para mitigar os impactos urbanos, viários e sociais decorrentes da ampliação da operação portuária. Estão previstas obras estruturantes relevantes, como a construção de dois viadutos, a readequação e modernização dos acessos viários, incluindo intervenções na região da Alemoa, além da criação de um novo condomínio logístico, pensado para organizar e absorver parte significativa da demanda operacional.
Essas soluções não atendem apenas ao Tecon 10, mas também consideram a transferência do terminal de cruzeiros para a região do Valongo, o que ampliará o fluxo de veículos leves e passageiros, especialmente entre os meses de outubro e abril. Tudo está sendo planejado de forma integrada para evitar gargalos logísticos, preservar a mobilidade urbana e garantir uma convivência equilibrada entre porto, cidade, trabalhadores e usuários.
Além da pera ferroviária, quais outras obras estruturantes da Ferrovia Interna do Porto de Santos (Fips) estão previstas para avançar em 2026?
Além da implantação da pera ferroviária, a Fips conta com um conjunto robusto de obras estruturantes previstas para avançar em 2026. Entre elas, destacam-se a revitalização da malha ferroviária existente, o início da implantação do Controle de Tráfego Centralizado, que permitirá maior automação, segurança e eficiência das operações ferroviárias, e a construção da passarela com rampa para ciclistas, nas proximidades da Alfândega.
Também está previsto o início das obras do Retropátio da Prainha, fundamental para ampliar a capacidade operacional da Margem Esquerda do Porto de Santos, além da conclusão da ponte ferroviária e dos acessos à pera dos terminais TEG/TEAG. Trata-se de um conjunto de intervenções estratégicas para fortalecer a multimodalidade e reduzir a dependência do transporte rodoviário.
Dos R$ 12,5 bilhões previstos em investimentos até 2028, R$ 6,14 bilhões serão aplicados em 2026 e 2027. Como a APS planeja gerir simultaneamente tantas obras de grande porte sem comprometer as operações do porto, que bateu recorde histórico em 2025?
A APS tem larga experiência na gestão simultânea de grandes obras sem comprometer as operações. O Porto de Santos opera com base em um planejamento rigoroso da navegação, que considera fatores climáticos, oceanográficos, operacionais e mercadológicos, sempre priorizando a segurança e a eficiência.
Obras complexas, como o túnel Santos-Guarujá, por exemplo, terão eventuais interrupções de navegação planejadas com antecedência, em diálogo permanente com os terminais, buscando sempre os períodos de menor impacto operacional. Esse modelo já é aplicado quando ocorrem eventos naturais, como ressacas ou neblina: assim que as condições permitem, a operação é retomada em sua totalidade.
Com planejamento, coordenação e diálogo, é plenamente possível executar investimentos de grande porte mantendo o Porto em plena atividade.
Presidente, qual é a sua visão pessoal sobre o papel do Porto de Santos na transição energética e na agenda ESG?
O Porto de Santos tem — e exerce — um papel de liderança na agenda ESG e na transição energética. Em agosto de 2023, lançamos o Manifesto ESG do Porto de Santos, um compromisso coletivo firmado pela APS, prefeituras da região e empresas do complexo portuário. Desde então, realizamos 15 encontros técnicos, promovendo conscientização e ações práticas. O movimento cresceu de forma expressiva: de 22 signatários iniciais, hoje são mais de 50.
Um exemplo concreto é o ESG Challenge, uma maratona de inovação que envolve universidades, startups, pesquisadores e profissionais do setor. As equipes vencedoras receberam bolsas da APS para desenvolver soluções reais para os desafios climáticos.
Na frente energética, firmamos contrato com a Fundação Valenciaport, referência mundial, para a elaboração do Plano de Descarbonização e do Plano Diretor Energético (PDE). Esses estudos irão mapear detalhadamente o consumo energético atual do Porto e apontar o caminho para a transição rumo a fontes cada vez mais limpas e sustentáveis. É um passo decisivo para o Porto do futuro.
Sobre o Porto-Logística e o Porto-Cidade, há um desafio de equilibrar turismo e logística de cargas, com competição por espaço, infraestrutura e recursos durante a temporada de cruzeiros. Na sua visão, qual deve ser a vocação prioritária do Porto de Santos: um hub logístico global de classe mundial ou um porto que também abraça sua vocação turística e cultural? É possível ser excelente nas duas frentes?
O Porto de Santos jamais pode abrir mão de sua vocação como hub logístico global, mas isso não é incompatível com fortalecer sua dimensão turística, cultural e urbana. Pelo contrário: é plenamente possível ser excelente nas duas frentes.
A transferência do terminal de passageiros para o Valongo, viabilizada com recursos do leilão do Tecon Santos 10, atende a um antigo desejo da cidade e estará integrada aos projetos de reurbanização do Centro Histórico, ao Parque Valongo e às iniciativas culturais da região. Mais do que infraestrutura, o Porto tem um papel social. Ele não é feito apenas de navios e guindastes, mas de pessoas.
Projetos como o Tripulantes do CENEP, que formou 115 jovens para atuar não só em cruzeiros, mas também em hotéis, bares e restaurantes, mostram que é possível criar pontes reais entre o Porto e a cidade, gerando oportunidades, inclusão e desenvolvimento.
O Porto está implementando tecnologias como rede 5G, inteligência artificial, drones e automação de processos. Como o senhor equilibra a necessidade de modernização tecnológica com a preservação de empregos dos trabalhadores portuários? Qual é sua visão sobre o futuro do trabalho no Porto de Santos em um cenário cada vez mais automatizado?
A modernização tecnológica é uma realidade irreversível. Tecnologias como inteligência artificial, internet das coisas, automação e sistemas integrados aumentam a eficiência, a segurança e reduzem falhas operacionais. Isso não significa perda de empregos. Significa transformação do trabalho.
Nosso compromisso é investir fortemente na requalificação dos trabalhadores portuários, para que a tecnologia seja uma aliada — e não uma substituta — do trabalho humano, que continuará sendo essencial no Porto de Santos.
Sobre atualidades e o mercado internacional, o senhor afirmou que o acordo Mercosul-União Europeia pode dobrar o movimento no Porto de Santos e que o crescimento médio de 5% ao ano tem a possibilidade de dobrar. Na sua avaliação pessoal, o Porto de Santos está preparado para esse salto?
Sim, o Porto de Santos está preparado. Há quatro anos, reposicionamos estrategicamente o Porto justamente para absorver um crescimento sustentado, que hoje já varia entre 5% e 7% ao ano.
Três anos atrás, apresentamos um plano ousado de expansão da infraestrutura, prevendo acessos, aprofundamento do canal, novos terminais e grandes obras estruturantes. O Porto de Santos responde por 30% da corrente comercial brasileira, conecta-se a 200 países e, atualmente, 15% das exportações têm como destino a União Europeia.
Segundo estimativas da CNI, esse fluxo pode dobrar em até 10 anos com o acordo. Obras como o túnel Santos-Guarujá, o aprofundamento do canal de 15 para 17 metros, as vias perimetrais e o Tecon Santos 10, que dobrará a capacidade de contêineres, já estavam planejadas exatamente para esse cenário.
Estamos construindo hoje a infraestrutura que sustentará o crescimento das próximas décadas.
Para concluirmos, se o senhor pudesse projetar o Porto de Santos para 2040, como gostaria que ele fosse? Que papel o senhor imagina para Santos no comércio global daqui a 14 anos?
Em 2025, o Porto de Santos alcançou a 37ª posição no ranking mundial, consolidando-se como o maior da América Latina e do Hemisfério Sul. Com os investimentos em curso e os que estão planejados, é absolutamente factível que, na década de 2040, o Porto de Santos esteja entre os 20 maiores portos do mundo.
O futuro do Porto de Santos será grandioso. Moderno, sustentável, integrado à cidade e estratégico para o comércio global.
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